Anos 90: A liberdade radical da moda que permanece na memória

A moda já teve seus dias de glória. Essa reflexão veio após uma visita a Londres e da nova exposição da Tate Britain, chamada The 90s: Art and Fashion, que foi inaugurada neste mês de outubro. A mostra homenageia uma era vibrante em que os jovens expressavam suas ideias mais audaciosas por meio de roupas e tendências inovadoras. Para resumir a situação — como os britânicos costumam fazer —, essa época representou não apenas a última década antes do mundo estar totalmente online, mas também o último grande momento de liberdade criativa e social. Foi um período marcado pela coexistência de estilos variados, onde as cenas noturnas desafiavam as passarelas, e os jovens se sentiam livres para subverter os padrões do que era considerado aceitável. Essa abordagem fez com que os modelos fossem escolhidos de forma menos convencional, questionando a diversidade e os corpos — mesmo que Kate Moss, com sua imagem delicada, tenha desafiado a hegemonia das supermodelos — e levando o público a refletir além das aparências. Em resumo, até a virada do século, a moda estava em ascensão. Foram essas tendências que, com o passar do tempo, transformaram peças de alta-costura em itens passageiras, fizeram a diversidade sair de cena, algumas produções manuais perderem importância e grandes grupos de moda adquirirem marcas autênticas que precisavam de apoio financeiro. Até mesmo a sustentabilidade, que parecia ganhar força em meados da década de 2010, logo não conseguiu se firmar...Uma Nova EraCom a descentralização da moda francesa nos anos 80, o Reino Unido já exibia uma forte cultura de vestuário influenciada pela música e pelas ruas. A negação dos modelos tradicionais levou ao surgimento de estilistas visionários: Alexander McQueen, Hussein Chalayan e John Galliano desafiaram as normas profissionais, mudando a forma como as roupas representavam a ousadia e a experimentalidade da juventude. Eles posteriormente cruzaram a fronteira para a França e dominaram, na década seguinte, duas das mais renomadas maisons de Paris – Galliano foi o primeiro a atuar na Givenchy, seguido por McQueen, que assumiu a Dior. As grandes modelos da época também eram britânicas: Naomi Campbell e Kate Moss.A Evolução do Modelo Nos anos 2000, a passarela tornou-se um palco de críticas à magreza extrema, trazendo à tona discussões sobre distúrbios alimentares nos bastidores. Contudo, surgiram modelos plus size em desfiles, campanhas e revistas, representando um marco importante. Ashley Graham foi uma das pioneiras dessa nova fase, abrindo o caminho para outras figuras como Paloma Elsesser e Jill Kortleve. Essa evolução pressionou as marcas a ampliarem suas numerações, mas a tendência logo recuou. De repente, a moda plus size saiu de cena. Hoje, são poucas as marcas que incluem um modelo que não se enquadre no padrão magro entre suas opções, e quando isso acontece, geralmente trata-se de uma participação especial, reforçando a ideia de que ter um corpo não-magro é a exceção. O uso crescente de análogos de GLP-1 também impacta o mercado: a perda de peso resultante de medicamentos pode nos fazer deparar com etiquetas de tamanhos baixos.Ficou para Trás Seja qual for a opinião sobre o estilo maximalista de Alessandro Michele, ele certamente revitalizou a moda. Sua estreia na Gucci, em 2015, tirou a estética da monotonia, além de aproveitar a visibilidade da marca italiana para desafiar os conceitos tradicionais de beleza, apresentando modelos que não se encaixam nas normas habituais.